Por Pedro Paulo Alvim
A política precisa se espiritualizar — no sentido profundo e não dogmático do termo — porque sua separação radical da dimensão espiritual contribuiu historicamente para o esvaziamento do sentido do agir coletivo, a reificação das instituições e a legitimação de formas de poder desumanizantes. Quando a política se reduz a técnica de governo ou gestão instrumental da vida, ela se afasta da experiência concreta dos sujeitos, de suas aspirações éticas, vínculos simbólicos e daquilo que Cornelius Castoriadis chamaria de “imaginação instituinte”. A espiritualização da política, nesse contexto, não significa submissão da esfera pública à religião ou crenças transcendentes dogmáticas, mas a reintegração de uma dimensão sensível, poética e ética que restitua à política sua função originária: cuidar do comum, orientar-se pelo bem coletivo e reabrir o horizonte do possível. Espiritualizar a política é também reconhecer que decisões coletivas não podem se basear apenas em cálculos racionais ou interesses econômicos, mas exigem um enraizamento no sentido vivido, na escuta do outro, no respeito ao mistério da vida e da morte, e na abertura ao imprevisível. Como mostram os exemplos ameríndios e mesmo certas práticas da democracia ateniense, uma política verdadeiramente autônoma emerge não da abstração fria da norma, mas da atenção ao invisível que habita a comunidade: os mortos, os que virão, os silenciados, os não humanos. A espiritualidade, nesse sentido, reencanta a política sem dogmatizá-la, oferecendo-lhe profundidade existencial, responsabilidade ética e vínculo com o que excede o imediato.”
Vivemos uma era de esvaziamento do sentido. A política, outrora expressão viva da ação coletiva e do cuidado com o comum, transformou-se, em muitos contextos, em mera técnica de administração, uma gestão impessoal da vida reduzida a números, protocolos e interesses. Sua separação radical da dimensão espiritual — entendida aqui não como religião dogmática, mas como profundidade sensível da existência — contribuiu para esse empobrecimento do horizonte coletivo. Perdeu-se o vínculo com o simbólico, o poético, o mistério que sustenta e atravessa o viver em comunidade.
A política precisa se espiritualizar — no sentido profundo e não confessional do termo
— porque sem essa dimensão ela se torna incapaz de escutar o que há de mais vital na experiência humana: o desejo de sentido, de vínculo, de pertencimento, de transcendência. A cisão entre o político e o espiritual deu lugar à reificação das instituições, à legitimação de formas de poder desumanizantes e à normatização de um mundo em que o agir coletivo se tornou um simulacro de si mesmo.
Quando a política se reduz à racionalidade instrumental — ao cálculo do possível, ao controle do risco, à administração da escassez — ela se afasta da imaginação instituinte que Cornelius Castoriadis apontava como fundamento de qualquer sociedade verdadeiramente autônoma. Deixa de ser criação do novo, abertura ao indeterminado, e passa a repetir fórmulas, reproduzir gestos esvaziados, obedecer a uma lógica que já não pulsa.
Espiritualizar a política, nesse contexto, não significa submeter a esfera pública à religião, tampouco substituir a deliberação coletiva por dogmas transcendentes. Significa, antes, reintegrar uma dimensão poética, ética e existencial ao espaço comum. Significa lembrar que toda política nasce de uma sensibilidade: pela injustiça, pelo sofrimento, pela beleza do mundo que ainda pode ser. É devolver à política sua função originária — cuidar daquilo que é de todos e, por isso mesmo, sagrado.
Esse cuidado não é abstrato: ele exige escuta. Escuta do outro, do invisível, do que veio antes e do que ainda virá. Espiritualizar a política é reconhecer que as decisões coletivas não podem ser tomadas apenas com base em dados, índices ou planos estratégicos. Elas exigem enraizamento no sentido vivido, no corpo que sente, na memória que pulsa, na história que sangra. Exigem abertura ao imprevisível — àquilo que ainda não é, mas pode vir a ser.
As cosmologias ameríndias, narradas por Pierre Clastres e David Graeber, nos ensinam que a política pode ser também um ritual. Um espaço de fala, escuta, consenso e cuidado que não separa o humano do não humano, o vivo do morto, o agora do ancestral. A democracia radical ali praticada não se apoia em normas fixas, mas em uma atenção constante ao equilíbrio das forças que habitam a comunidade. O chefe que fala sem impor, a assembleia que decide com os espíritos, a floresta que participa — tudo isso constitui uma política espiritualizada.
O mesmo vislumbre encontramos na ágora ateniense. Ali, a política era também um rito: um exercício de presença, de voz e de tempo vivido. A assembleia durava horas, o corpo participava, o cidadão não era apenas eleitor, mas legislador, pensador, poeta da cidade. A política não era separada da paideía, da formação do espírito, da escuta do trágico, do mistério do destino.
Quando a espiritualidade reencontra a política, ela não impõe verdades absolutas, mas reabre o horizonte do possível. Ela restitui profundidade existencial ao espaço público. Relembra que legislar é também imaginar, que decidir é também sonhar. Ela reconhece que a comunidade não se resume ao visí
Parte superior do formulário
Parte inferior do formulário